Fim de Expediente

Eram nove da noite e só restavam duas pessoas no escritório: Patrícia, terminando um relatório atrasado, e Vinícius, o novo gerente que ela vinha evitando olhar diretamente há semanas, com medo do que aquele olhar pudesse revelar.

 

"Ainda aqui?", ele perguntou, encostado na porta da sala dela, a gravata já afrouxada. "Você também", ela respondeu, sem conseguir esconder o sorriso. Ele entrou, sentou na beirada da mesa dela, perto demais para ser só sobre trabalho.

 

"Sabe, eu ando adiando isso há um tempo", Vinícius disse, a voz mais baixa. "O quê?", Patrícia perguntou, embora já suspeitasse da resposta. Ele não respondeu com palavras — se inclinou e a beijou devagar, entre pilhas de papel e o brilho fraco do abajur de mesa, como se tivesse ensaiado aquilo mil vezes na cabeça.

 

O relatório ficou pela metade. Ninguém no escritório reclamou — principalmente porque ninguém mais estava lá para ver.

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